sábado, 25 de junho de 2011

Aos Ratos

   


     O sol era poente e a lua, bem cheia, já despontava escondida, embaçada na neblina, refletindo no rio, - por ela manchado de branco. Puro, suave - escurecendo barcos e canoas atracadas. As águas, outrora pesadas, correntes, cheias de vida, pareciam repousar na mesma morbidez de Claire, sendo levadas aos empurrões das remadeiras, embora não causassem ondas ao redor.
     A paisagem ao fundo era cinza, - ou então o eram seus olhos - suja, angustiante. O grande Big Ben destacava-se entre o concreto, marcando seis e meia, hora da missa célebre. Virou-se de lado. Ele dormia intensamente, roncava e empodrecia o ambiente com seu cheiro de suor e carga.
     Todos atracavam por volta das cinco, querendo chá - se é que se compreende. Não havia cerimônia, pagava-se bem. Desciam dos barcos sedentos, com fome, procurando por carne e agarravam a primeira peça que lhes apetecesse no açougue enfileirado à sua frente. Claire era bem branca; cabelos compridos, ondulados e castanhos, presos num coque; olhos grandes, azuis, marcados por volumosos cílios; a boca era grande, rosa, úmida. Ela era nova, nada mais do que dezoito, dezenove anos. Era também carne nova, de primeira mão, no pequeno cais.
     O abatedouro não era reservado, muito menos confortável. Fora jogada em cima das cargas. Sentia subir por seu corpo uma respiração ofegante, pesada, fétida. As mãos eram asperas e a estupravam, por vez tapando sua boca. Foi rápido, de uma vez só, uma dor só, sem cuidado ou dó - agora entendera o porquê da boca tapada. Foi rápido também que acabou, rápido como ele virou e dormiu.
     Claire já estava ali há um tempo, observando a neblina cair. Ele acordaria, maldosa, perverso - ela sabia. Pois lhe cobraria duplicado, então.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Não dois, não um.

     No espelho, os cabelos vermelho-fogo, brilhantes, reluziam; as sardas envelhecidas com o tempo; os olhos já desencontrados. Na mente, as cenas: quentes, vívidas ainda. A pequena sala de estar se fez abafada às lembranças daquele homem. Os olhos no espelho já não mais desencontrados; agora faiscavam. Jogou-se no divã, sentindo o calor de seu próprio corpo contrastar com a fria seda da camisola. Arrepiada, viajou nos pensamentos daquela primavera.
     Nunca conhecera tamanha sagacidade. Ágil, esperto, convicto e até prepotente. Ele sabia o que fazer, quando fazer e como fazer. Empresário ácido, pai exemplar, homem por inteiro. No primeiro encontro, carinho; no segundo encontro, inteligência; no terceiro encontro, malícia. Ela só queria encostar aqueles cabelos ruivos nele para sempre.
     Eram dois amantes viciados. Eram amantes no beijo, no olhar, na voz. Dois apaixonados ardentes que juraram eterno amor dentro daquelas paredes sagradas. Que seja eterno enquanto dure.
     Barulho angustiante de fechadura. Sua pequena criança corre e pula em seus braços antes mesmo que ele possa entrar, derrubando seus papéis e carteira, a velha carteira de couro marrom. Ele ri, levantando o filho no colo, girando-o no ar.
     - Não vai cumprimentar a mamãe?
     Dois lábios já frios encostam-se. Na carteira, no chão, uma foto amassada, já esquecida. Na foto, os cabelos vermelho-fogo, brilhantes, reluziam; as sardas envelhecidas.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Do cego julgamento

Eu saía do meu trem sob o sol do meio-dia. Sentei num dos bancos da Luz resolvido a esperar que o caos do metrô se dissolvesse na tarde. Movimento vai e vem, quarenta minutos depois entrei no mais vazio dos vagões.
Deparei-me com um jovem, na aura de seus dezoito, dezenove anos - cabelo dreadlocks, mochila grande, murcha e preta, bermuda e chinelo. O jovem fixava o olhar no banco à sua frente, no qual me sentei. Logo atrás, outro entrou no vagão, sentando-se mais à frente, mãos dadas com uma garota, simples, de cabelos lisos; não o defini homem ou menino, embora sua expressão me parecesse carregar toda a malícia deste mundo, enquanto sua barba mal feita contrastava com o moletom Vans.
Da multidão que entrava apressada, um casal e seu filho me chamavam a atenção; a mãe, vestindo saia e blazer, carregada por uma péssima maquiagem, o pai - todo engravatado - lançava olhos ávidos e interesseiros sobre o filho, que apertava as mãos no banco, me parecendo ansioso. A mãe olhava com desdém para o dreadlocks e o outro jovem que eu observava. Puxou seu menino para perto como uma mãe que tenta proteger a cria, mas ainda não consciente do próprio preconceito. O menino lançava olhares de solsaio ao pai, que mantinha a expressão.
Desci na Trianon. À minha frente o barba mal feita saía com sua menina. Era engraçado ver em seu rosto toda a sapiência de quem tem diploma de rua, com o perdão da ausência da sapiência da alma de uma mulher - as mãos entrelaçadas da menina relutavam, e seus olhos eram vazios. O casal e o filho saíram, ambos despediram-se da mãe e saíram da estação, a um aparente contragosto do menino. Dirigi-me para fora também, logo avistando uma menina - olhos passionais e moles quadris demonstravam sua linda alma - que sorriu abertamente em minha direção. Virei meu olhar; o dreadlocks esboçava o maior dos sorrisos entre as lágrimas. A menina lançou-se no colo dele e ambos protagonizaram o mais ardente e autêntico dos beijos já vistos. Alguns olhavam de forma imoral, outros apreciavam, outros condenavam. Pensei na mãe, que seguira seu caminho, protegendo seu filho de um mero apaixonado.
Ao sair da estação, caminhei até o antigo parque, em frente ao clássico Masp. Entrando, me vi cercado de putas e pobres, dentre alguns transeuntes. Ao longe, revi aquele pai de olhar ávido. Uma de suas mãos dentro do bolso da calça do filho, a outra entregava à uma branca mulher uma nota de vinte. Os olhos úmidos do menino me corrompiam.