sexta-feira, 22 de abril de 2011

Do cego julgamento

Eu saía do meu trem sob o sol do meio-dia. Sentei num dos bancos da Luz resolvido a esperar que o caos do metrô se dissolvesse na tarde. Movimento vai e vem, quarenta minutos depois entrei no mais vazio dos vagões.
Deparei-me com um jovem, na aura de seus dezoito, dezenove anos - cabelo dreadlocks, mochila grande, murcha e preta, bermuda e chinelo. O jovem fixava o olhar no banco à sua frente, no qual me sentei. Logo atrás, outro entrou no vagão, sentando-se mais à frente, mãos dadas com uma garota, simples, de cabelos lisos; não o defini homem ou menino, embora sua expressão me parecesse carregar toda a malícia deste mundo, enquanto sua barba mal feita contrastava com o moletom Vans.
Da multidão que entrava apressada, um casal e seu filho me chamavam a atenção; a mãe, vestindo saia e blazer, carregada por uma péssima maquiagem, o pai - todo engravatado - lançava olhos ávidos e interesseiros sobre o filho, que apertava as mãos no banco, me parecendo ansioso. A mãe olhava com desdém para o dreadlocks e o outro jovem que eu observava. Puxou seu menino para perto como uma mãe que tenta proteger a cria, mas ainda não consciente do próprio preconceito. O menino lançava olhares de solsaio ao pai, que mantinha a expressão.
Desci na Trianon. À minha frente o barba mal feita saía com sua menina. Era engraçado ver em seu rosto toda a sapiência de quem tem diploma de rua, com o perdão da ausência da sapiência da alma de uma mulher - as mãos entrelaçadas da menina relutavam, e seus olhos eram vazios. O casal e o filho saíram, ambos despediram-se da mãe e saíram da estação, a um aparente contragosto do menino. Dirigi-me para fora também, logo avistando uma menina - olhos passionais e moles quadris demonstravam sua linda alma - que sorriu abertamente em minha direção. Virei meu olhar; o dreadlocks esboçava o maior dos sorrisos entre as lágrimas. A menina lançou-se no colo dele e ambos protagonizaram o mais ardente e autêntico dos beijos já vistos. Alguns olhavam de forma imoral, outros apreciavam, outros condenavam. Pensei na mãe, que seguira seu caminho, protegendo seu filho de um mero apaixonado.
Ao sair da estação, caminhei até o antigo parque, em frente ao clássico Masp. Entrando, me vi cercado de putas e pobres, dentre alguns transeuntes. Ao longe, revi aquele pai de olhar ávido. Uma de suas mãos dentro do bolso da calça do filho, a outra entregava à uma branca mulher uma nota de vinte. Os olhos úmidos do menino me corrompiam.