No espelho, os cabelos vermelho-fogo, brilhantes, reluziam; as sardas envelhecidas com o tempo; os olhos já desencontrados. Na mente, as cenas: quentes, vívidas ainda. A pequena sala de estar se fez abafada às lembranças daquele homem. Os olhos no espelho já não mais desencontrados; agora faiscavam. Jogou-se no divã, sentindo o calor de seu próprio corpo contrastar com a fria seda da camisola. Arrepiada, viajou nos pensamentos daquela primavera.
Nunca conhecera tamanha sagacidade. Ágil, esperto, convicto e até prepotente. Ele sabia o que fazer, quando fazer e como fazer. Empresário ácido, pai exemplar, homem por inteiro. No primeiro encontro, carinho; no segundo encontro, inteligência; no terceiro encontro, malícia. Ela só queria encostar aqueles cabelos ruivos nele para sempre.
Eram dois amantes viciados. Eram amantes no beijo, no olhar, na voz. Dois apaixonados ardentes que juraram eterno amor dentro daquelas paredes sagradas. Que seja eterno enquanto dure.
Barulho angustiante de fechadura. Sua pequena criança corre e pula em seus braços antes mesmo que ele possa entrar, derrubando seus papéis e carteira, a velha carteira de couro marrom. Ele ri, levantando o filho no colo, girando-o no ar.
- Não vai cumprimentar a mamãe?
Dois lábios já frios encostam-se. Na carteira, no chão, uma foto amassada, já esquecida. Na foto, os cabelos vermelho-fogo, brilhantes, reluziam; as sardas envelhecidas.